17 de agosto no ônibus.

 Era a única coisa que nos ligava de alguma maneira, pele com pele. Duas cadeiras lado a lado, um ônibus e o resto do mundo funcionando como de costume, eu... Bem eu estava ali, queria que estivéssemos sozinhos ali, fiquei por horas apenas olhando seu pescoço, seu rosto, suas espinhas que de vez em quando eram cutucadas. Imaginei seu cheiro, imaginei seu toque e como era bom ser tocado por ele, era a única coisa que ele me dava: um toque acidental por falta de espaço.

 Parecia que eu o conhecia há muito tempo, naquele ônibus ele foi meu namorado. Foi meu, mesmo que ele não percebesse isso. Fiquei satisfeito com o não olhar que ele me dava. Sei que parecem migalhas, mas pelo menos tinha, da parte dele, atitude de não me dar nada. Dormia e acordava e ele continuava ali sem me ver ou até me querer. Como eu o queria. Como eu queria que ele se virasse para mim, então decidi acreditar que ele havia se virado, como eu queria que ele me beijasse então eu acreditei que havia sido beijado por ele naquele ônibus repulsivo.

Fui amado por menos de uma hora por mim mesmo. Fui amado por um estranho inexistente projetado num alguém desconhecido ao meu lado. Era tudo que tinha, não tinha nada além disso, mas em compensação eu tinha tudo. Ficava mexendo na minha bolsa só para poder tocar mais nele, só para sentir a minha pele deslizando pela dele, pensei em dezenas de outras maneiras de lhe tocar. Dormi.

Acordei e fechei a janela, o sol batia no rosto dele, não queria que ele acordasse, queria que ele se perdesse , perdesse a hora de descer e assim eu podia ajuda-lo para onde ele quisesse ir. Queria que ele fosse comigo, perderia o dia, a aula só para conhecê-lo para ser tocado e toca-lo intencionalmente. Teria além do toque ocasional suas palavras distantes próprias aos estranhos. O ônibus balança e para, ele se vai, não se despede, depois de tudo o que vivemos nem me da um adeus. Voltei a ficar só, mas agora preenchido por algo que eu não tive, que nunca tive e que nunca terei.


Ninguém fala comigo, todos falam com sigo mesmo presenciados por outrem que também fala consigo próprio

2 comentários:

Dyego Stefann disse...

já senti isso... e ainda hoje vejo ela no onibus, mas nunca mais vai ser como aquele dia estranho.

Felipe Damasceno disse...

Acho que nunca mais vou ver ele...queria tanto conhece-lo ou algo parecido

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